sexta-feira, 15 de junho de 2012

Eu amava o que não me davas


Eu amava o que não me davas
Outras amaram teu corpo
Tua paixão teu sorriso
A novidade de teu prazer
Tua iluminada inteligência

Eu amava o que não me davas
Tua paternidade, tua presença cotidiana
Teu semblante na fotografia
Teu abraço de bom dia
Teu retorno de viagens
As dedicatórias de teus livros

Eu amava o que não me davas
Longos beijos numa manhã de sábado

Eu amava amava amava
O sádico, a solidão, os sinos das igrejas de Minas
Os sons das palavras que te escrevo
Os sinais, os signos, as constelações
As distâncias que nos uniram

Queria amar o que nunca te dei
Minha percepção exata de cada parte de teu corpo
A curvatura de teus dedos em minhas retinas
A atenção devocional aos teus olhos por detrás dos óculos
Afagos sem preparo para acontecer 

Eu amava o que me davas
Dádivas divas divindades e divãs
Davas-me, amor, a vida.  

Foto: Lucien Clergue

No inverno, espero a primavera

Madrigal da primavera temporona

Ipês amarelos da cidade
Espiam nossa felicidade
Beijo teus lábios roxos
E os ipês da mesma cor
Testemunham nosso amor

Há também os ipês brancos
Nuvens no azul do dia
Primavera anda de tamancos
Vestida toda de alegria

A elegância da mulher quando ama
Como os ipês rouba o olhar
Pelo chão mil cores derrama
Sua rama prima por se dar

Quisera eu fazer uma rima com a beleza da primavera
Com som de abelha rainha e néctar de flor no gosto
Meu verso fugido tinha
Contigo neste fim de agosto.

Madri

Mais uma vez, as teclas invisíveis do piano que ela sempre imaginava nas costas do seu amante foram tocadas e uma melodia interior fez sua mente dançar. Linda canção cuja voz não expressa, declaração de amor impossível de ser verbalizada. O toque era como um carinho que esperou anos para acontecer, ou uma flor que demorou viver de primaveras mas, de repente, floresceu no verão deste afeto, semeado ao vento. O prazer do encontro passa a ser um filho com o tempo, rebento dos fortes. Em tudo que ela dizia estava uma declaração de amor. Disse que arriscaria a própria vida para salvar o amado da morte. Disse que sem ele seu corpo não conhecia a alegria. Disse mais do que devia, como soem fazer os inebriados apaixonados. Calou-se ao se despedir, com medo de ficar emotiva demais. Despedidas são sempre boçais quando já se conhece a saudade. Foi um beijo rápido e intenso, desses que beija-flor dá em amor-mais-que-perfeito.