quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Reflexo



Se sou amado,
quanto mais amado
mais correspondo ao amor.
Se sou esquecido,
devo esquecer também,
Pois amor é feito espelho:
-tem que ter reflexo.

Pablo Neruda



quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Mudança de Idade - Mia Couto



para explicar os excessos da minha irmã e do meu irmão dizia: está na mudança de idade. Na altura, eu não tinha idade nenhuma e o tempo era todo meu. Despontavam borbulhas no rosto do meu irmão, eu morria de inveja enquanto me perguntava: em que idade a idade muda? Que vida, escondida de mim, vivia ele? Em que adiantada estação o tempo lhe vinha comer à mão? Na espera de recompensa, eu à lua pedia uma outra idade. Respondiam-me batuques mas vinham de longe, de onde já não chega o luar. Antes de dormirmos a mãe vinha esticar os lençóis que era um modo de beijar o nosso sono. Meu anjo, não durmas triste, pedia. E eu não sabia se era comigo que ela falava. A tristeza, dizia, é uma doença envergonhada. Não aprendas a gostar dessa doença. As suas palavras soavam mais longe que os tambores nocturnos. O que invejas, falava a mãe, não é a idade. É a vida para além do sonho. Idades mudaram-me, calaram-se tambores, na lua se anichou a materna voz. E eu já nada reclamo. Agora sei: apenas o amor nos rouba o tempo. E ainda hoje estico os lençóis antes de adormecer. 

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Trechos de livros que já li

... "Dizem que a solidão é necessária para se alcançar a santidade. Esqueceram-se de que na solidão a tentação é maior." 
(Carlos Fuentes - Aura)

"Quero te dizer também que nós, as criaturas humanas, vivemos muito (ou deixamos de viver) em função das imaginações geradas pelo nosso medo. Imaginamos consequências, censuras, sofrimentos que talvez não venham nunca e assim fugimos ao que é mais vital, mais profundo, mais vivo. A verdade, meu querido, é que a vida, o mundo dobra-se sempre às nossas decisões."
( Lygia Fagundes Telles - As Meninas)



"O amor tem seu instinto, sabe encontrar o caminho do coração, como o inseto mais frágil caminha para sua flor com uma vontade irresistível que nada assusta. Por isso, quando um sentimento é  verdadeiro, seu destino não é duvidoso."
(Honoré de Balzac; A Mulher de 30 anos)

"Era bom dormir nos braços de um homem, sentir o estremecimento do corpo, a boca a morder, num suspiro morrer... Dele gostava de um gostar diferente. Na cama para gemer, beijar, morder, suspirar, morrer e renascer. Mas também para dormir de verdade, sonhando com o sol, com o gato bravio, com a areia da praia, a lua do céu e a comida a fazer."
(Jorge Amado; 
Gabriela, cravo e canela)


"Já disse que as metáforas são perigosas. O amor começa por uma metáfora. Ou melhor: o amor começa no instante em que uma mulher se inscreve com uma palavra em nossa memória poética."
(Milan Kundera; 
A insustentável leveza do ser)


"Que são minutos? Que são meses? Paixões de largos anos, chegando menos pela indiferença. O amor não é mais que um instrumento de escolha; amar é eleger a criatura que há de ser companheira na vida, não é afiançar a perpétua felicidade de duas pessoas, porque essa pode esvair-se ou corromper-se. Que resta à maior parte dos casamentos, logo após os anos de paixão? Uma afeição pacífica, a estima, a intimidade."
(Machado de Assis; Helena)



"O amor? Pássaro que põe ovos de ferro."

(João Guimarães Rosa; Grande sertão: veredas)



terça-feira, 12 de novembro de 2013

O que quiseres, mas o meu amor jamais!

Embora saiba
que me tens tão grande adoração
eu sigo a ordem
e essa é dada por meu coração
neste romance
existem lances sensacionais
mas te dar o meu amor, jamais
A gente ama verdadeiramente
uma vez
outras são puras fantasias

Transformando a negação em benção

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

No elevador do filho de Deus - Elisa Lucinda

A gente tem que morrer tantas vezes durante a vida
Que eu já tô ficando craque em ressurreição.
Bobeou eu tô morrendo
Na minha extrema pulsão
Na minha extrema-unção
Na minha extrema menção
de acordar viva todo dia
Há dores que sinceramente eu não resolvo
sinceramente sucumbo
Há nós que não dissolvo
e me torno moribundo de doer daquele corte
do haver sangramento e forte
que vem no mesmo malote das coisas queridas
Vem dentro dos amores
dentro das perdas de coisas antes possuídas
dentro das alegrias havidas

Há porradas que não tem saída
há um monte de "não era isso que eu queria"
Outro dia, acabei de morrer
depois de uma crise sobre o existencialismo
3º mundo, ideologia e inflação...
E quando penso que não
me vejo ressurgida no banheiro
feito punheteiro de chuveiro
Sem cor, sem fala
nem informática nem cabala
eu era uma espécie de Lázara
poeta ressucitada
passaporte sem mala
com destino de nada!

A gente tem que morrer tantas vezes durante a vida
ensaiar mil vezes a séria despedida
a morte real do gastamento do corpo
a coisa mal resolvida
daquela morte florida
cheia de pêsames nos ombros dos parentes chorosos
cheio do sorriso culpado dos inimigos invejosos
que já to ficando especialista em renascimento

Hoje, praticamente, eu morro quando quero:
às vezes só porque não foi um bom desfecho
ou porque eu não concordo
Ou uma bela puxada no tapete
ou porque eu mesma me enrolo
Não dá outra: tiro o chinelo...
E dou uma morrida!
Não atendo telefone, campainha...
Fico aí camisolenta em estado de éter
nem zangada, nem histérica, nem puta da vida!
Tô nocauteada, tô morrida!

Morte cotidiana é boa porque além de ser uma pausa
não tem aquela ansiedade para entrar em cena
É uma espécie de venda
uma espécie de encomenda que a gente faz
pra ter depois ter um produto com maior resistência
onde a gente se recolhe (e quem não assume nega)
e fica feito a justiça: cega
Depois acorda bela
corta os cabelos
muda a maquiagem
reinventa modelos
reencontra os amigos que fazem a velha e merecida
pergunta ao teu eu: "Onde cê tava? Tava sumida, morreu?"
E a gente com aquela cara de fantasma moderno,
de expersona falida:
- Não, tava só deprimida.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Caçada - Chico Buarque



Não conheço seu nome ou paradeiro
Adivinho seu rastro e cheiro
Vou armado de dentes e coragem
Vou morder sua carne selvagem
Varo a noite sem cochilar, aflito
Amanheço imitando o seu grito
Me aproximo rondando a sua toca
E ao me ver você me provoca
Você canta a sua agonia louca
Água me borbulha na boca
Minha presa rugindo sua raça
Pernas se debatendo e o seu fervor
Hoje é o dia da graça
Hoje é o dia da caça e do caçador


Eu me espicho no espaço feito um gato
Pra pegar você, bicho do mato
Saciar a sua avidez mestiça
Que ao me ver se encolhe e me atiça
Que num mesmo impulso me expulso e abraça
Nossas peles grudando de suor
Hoje é o dia da graça
Hoje é o dia da caça e do caçador



De tocaia fico a espreitar a fera
Logo dou-lhe o bote certeiro
Já conheço seu dorso de gazela
Cavalo brabo montado em pêlo
Dominante, não se desembaraça
Ofegante, é dona do seu senhor
Hoje é o dia da graça
Hoje é o dia da caça e do caçador.

(Esta é a letra de uma canção que está num CD que eu adoro e ganhei de presente do homem mais gostoso do mundo... Acho uma das poesias eróticas mais lindas!)




Transar - Carlos Rodrigues Brandão

"Viúva e envelhecida
Teresa, a lavadeira
Sorri para si mesma e ao vento
enquanto põe na água do tanque
o teu lençol da noite de ontem
com alguns fios de cabelos claros
e manchas dos sucos de dois corpos.
Houve um tempo, ah, houve um tempo!
E ela pensa enquanto lava e lava:
quando meu lençol branco
já foi também assim também". 

(Poema extraído do livro Orar com o Corpo)